segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MANO BETO

Foi uma criança tranquila e pacata. A vida inteira concordei com o que meu pai dizia sobre tal temperamento: “Quase nasceu em berço esplêndido!” Alusão ao ter nascido um dia anterior ao da comemoração da independência do Brasil, o que mais tarde questionei intimamente, visto que “berço esplêndido” é uma expressão do Hino Nacional e não do Hino à Independência. Tal purismo não importa, todavia. O fato é que daquele comportamento infantil resultou um adulto de têmpera digna, sensata e humana, na acepção real da palavra.
E não é que, apesar de tal consideração da minha parte, o dia 6 de setembro passou e não o cumprimentei? Lembrei-me, de fato, hoje pela manhã, com aquele sentimento de remorso e uma ponta de raiva pelo retardamento da memória. Talvez eu ligue durante o dia, sem apresentar desculpas pela falta de justificação. Quem sabe eu mencione a falha da memória devido à idade! O que explica, mas não justifica, dada a quantidade de dispositivos que nos cercam para nos lembrar de datas que julgamos importantes. De um mero calendário na parede, ao celular e ao computador, diariamente presentes no nosso cotidiano.
Como dizia o apresentador do noticiário: “Falha nossa!”
O fato de determinarmos certas marcações temporais para comemorarmos, ou lembrarmos, de certos acontecimentos como nascimento, morte, noivado, casamento, certamente nos trazem, vez por outra, situações embaraçosas, pois acabamos julgados como esquecidos, ou negligentes até. Que o digam todos os homens quando confrontados com a memória feminina no campo das efemérides! Não há como competir!
Resolvi então, abrir de certa forma meus sentimentos e pensamentos e postar no meu blog, não como uma homenagem ou presente porque o Mano Beto merece muito mais que isso, mas como uma forma de dirigir um pouco de carinho, abertamente, a uma pessoa que julgo merecer mais do que tem. Não sei se e quando darei um presente, desses embrulhados de modo especial, com cartão e tudo, mas desde sempre tenha a certeza que de algum jeito retribuirei à sua fraternidade e bondade.
Chega, que a pieguice está na iminência de assumir o texto!
É isso! Parabéns, Mano, por mais um ano de vida!

FRASE
“Se o homem procurasse ser bom tanto quanto se esforça por parecê-lo, sê-lo-ia, sem dúvida.”
Cristina da Suécia

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Como parte do meu trabalho, procuro ficar informado sobre assuntos ligados à indústria de alimentos e bebidas, à nutrição e à saúde. Para quem não sabe, trabalho numa numa revista técnica dirigida a profissionais envolvidos nas áreas mencionadas, a Food Ingredients Brasil, cujo site possui um link de notícias.

Em termos de mercado as notícias versam sobre investimentos, aquisições e fusões, "trocas de cadeiras", eventos e afins. Já na área técnica e científica, o interesse recai sobre novidades de produtos, legislação e pesquisas. As fontes mostram que, exceto algumas poucas faculdades e instituições nacionais, o grande volume em pesquisas se dá internacionalmente. E é aí que, vez por outra, acabo sabendo de certos estudos que colocam a pulga, e outros insetos também, atrás das orelhas.

Só na semana passada, duas pesquisas trouxeram informações "relevantes", sem contar os títulos nos noticiários: "Cerveja previne osteoporose em mulheres", na Veja.com, e "Maconha pode proteger idosos contra osteoporose, diz estudo", no Diário da Saúde.

Não sei se foi a pulga, mas, assim como aquele "Globo Repórter" documentando as maravilhas do café, cujos preços estão em baixa em todos os mercados, o cheiro é de coelhos. Dois, pra ser um tanto mais preciso, destinados pela mesma paulada.

Mas voltando à cerveja e à maconha, os estudos são realmente sérios, com ligações acadêmicas, realizados por cientistas, com testes em grupos, estatísticas e tudo, aparentemente, o que uma pesquisa precisa para ser validada e publicada. E o interessante, ambas sobre o mesmo tema, a osteoporose, doença manifestada principalmente por mulheres após a menopausa.

A pesquisa da cerveja foi feita por cientistas espanhóis e publicada no importante jornal "Nutrition", onde a prova concreta foi a radiografia das mãos das mulheres, cerca de 1.700 com idade média de 48 anos, apresentando índices de desgaste realmente ínfimos. Os cientistas sugerem que até mesmo mulheres que consomem "menos de um litro de cerveja por dia", tendem a apresentar resultados positivos em relação à osteoporose. Pergunto ignorantemente: radiografaram os fígados destas mulheres? E os níveis de colesterol? Talvez venham a ser objetos de outras pesquisas!

Quanto à maconha, o estudo foi realizado na Universidade de Edimburgo, mas o grupo estudado foi composto por camundongos "idosos". Uma substância existente na composição da maconha seria responsável pela prevenção à osteoporose, mas os estudiosos recomendam aprofundar os estudos e um cientista sugere: "A fórmula ideal para avançar nesse terreno seria o desenvolvimento de um medicamento parecido com a maconha, mas que não afete o cérebro". Pergunto novamente: é preciso ser cientista para se chegar a esta brilhante conclusão?

Pouco antes de concluir este texto, nova pesquisa foi publicada por cientistas da Universidade de Granada, Espanha. Chegaram à conclusão que a cerveja é uma ótima opção para reidratação de esportistas regulares, mais que água e/ou isotônicos! Recomendam moderação no uso, todavia. Três latinhas para homens e duas para mulheres, após sessenta minutos de esforço físico. Fisiologistas brasileiros dividiram-se quanto à eficiência da cerveja, o que não é de se espantar! Eu, porém, não preciso de pesquisas, tampouco de opiniões e sugestões de cientistas e estudiosos. Já sei quando, como e quanto eu posso degustar uma boa dourada trincando de gelada e, convenhamos, uma alimentação saudável e exercícios regulares já previnem um monte de doenças. Se não forem suficientes, existem os medicamentos, ora!

FRASE
"Nem todo uso de álcool leva ao abuso, porém, todo abuso encontra o uso moderado na sua origem."
Klaus Rehfeldd

segunda-feira, 20 de abril de 2009

CONVERSAS DE FILA

Antes, muitas. Hoje, menos.
Já enfrentei, como muitos da minha idade, inúmeráveis filas.
A mais frequentada ultimamente é a de supermercado. Também escapável se quiser comprar online, mas nada como olhar e comparar produtos na prateleira, sentir no tato e escolher uma fruta, um legume ou uma verdura.
Como normalmente sigo a regra básica de levar uma lista, a compra é habitualmente rápida. Na hora de pagar é que são elas! 30, 40, 50 caixas, das quais quando 50% estão ativas já é um milagre!
Inventaram os caixas rápidos, mas a maioria faz compras de até 20 a 30 volumes. Vai daí, a fila nestes caixas, apesar de andar mais rápido, são muito mais extensas.
É quando você dá uma olhada pra trás, ou a pessoa da frente se volta pra você, e, havendo aquela sintonia de sentimento, se inicia uma conversa. Às vezes são nada mais que frases soltas demonstrando indignação pela falta de respeito com o consumidor. Em algumas ocasiões, a filosofia assume e podem ser discutidos diversos temas, de esporte a religião, do cotidiano à política, onde, com certeza, a corrupção é o mote.
Dia desses, início da noite, lá estou eu numa daquelas filas invariavelmente lentas - acho que escolho a dedo! Intermináveis instantes de velocidade zero, olho pra trás e já há umas 5 ou seis pessoas, que, aparentemente, me encaram e eu fico até meio sem jeito. Logo atrás de mim, uma mulher ao celular falando que já está a meia hora na fila e que já comprou. De minha parte, fico de lado, olhando a última tentativa de venda da loja que são as gôndolas entre os caixas.
- Coisa de louco! - diz a mulher, após ter desligado o celular, e continua:
- O senhor não acha?
Volto-me, balanço afirmativamente a cabeça e tento estampar uma fisionomia de concordância e de acomodação.
À minha frente um casal, cuja mulher acaba verbalizando por mim:
- É uma pouca vergonha! Onde já se viu tamanha falta de respeito!
A primeira começa a desfiar o seu calvário de mulher sozinha, que trabalha fora, que cuida da casa, dos filhos, da empregada, do filho da empregada, etc.
A segunda "dá corda" e eu acabo como espectador de tênis, acompanhando o diálogo com a movimentação da cabeça.
Sozinha por viuvez ainda jovem, tentou até um relacionamento que não progrediu, pois o "cara" não tinha lá muito jeito com as crianças, confessa a primeira. E a fila não se move um milímetro!
- Homem é tudo igual - sentencia a segunda, cujo companheiro acaba se voltando e me lançando um olhar de solidariedade. Sai uma operadora e entra outra na caixa.
- Agora vai - penso com toda a boa fé.
Dou uma inspecionada no carrinho da primeira e constato o cardápio: um pacote de macarrão, um de carne moída, duas latas de molho de tomate, um pacote de queijo ralado = espaguete à bolognesa. A fila dá um passo, a conversa continua animada e o homem do casal nem pra dar um cutucão encerrador de papo furado!
No próximo passo da fila, tenho a brilhante idéia de ceder meu lugar à primeira no mesmo instante que o seu celular toca.
- Muito obrigada! O senhor vê? Era meu filho reclamando que eu estou demorando muito! Tem cabimento?
- Criança é assim mesmo - tentei contemporizar.
- Que criança, que nada! Ele já tem 19 anos, mas não sabe se virar! Eu que tenho de saber onde ele põe suas roupas, suas coisas... não frita um ovo... etc...
Manobrei o carrinho para ela avançar o dela e trocamos de posição. A conversa entre as duas recomeçou.
Fiquei novamente de lado na fila e, infelizmente, voltei-me para o fim da fila.
- São umas vítimas, não? Coitadinhas! Eu é que sei. 'Tá vendo essa compra? É mais para o meu filho e meus netos do que pra mim!
O sujeito nem percebeu a minha cara de enfado e emendou:
- Foi morar comigo de mala e cúia, depois que a mulher botou um chifre nele com o patrão dela! Mulher trabalhar fora dá nisso!
Se eu discordasse, alimentava a discussão. Concordei gestualmente. Foi o sinal verde para um relatório completo!
Milagrosamente a fila andou um pouco mais ligeiro e o "sacerdote" aqui conseguiu sair!
Será o Benedito?

FRASE
"A ociosidade é a estupidez do corpo e a estupidez é a ociosidade da mente"
Johann G. Seume

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Visões

Dia desses, emprestei um livro que ganhei no último Dia dos Pais a um amigo. O livro, “Laowai” (estrangeiro, em chinês), escrito por Sônia Bridi (jornalista e repórter da Rede Globo) é uma espécie de diário de viagem sobre a estada dela, de seu marido, Paulo Zero (cinegrafista) e o filho Pedro. Ela foi correspondente em Pequim de 2005 a 2007, saindo de lá para Paris durante os preparativos finais dos Jogos Olímpicos. O amigo, Michel, belga-francês, meu vizinho, no Brasil desde 1.972.
Li em doses homeopáticas entre agosto e dezembro. Num misto de trabalho e turismo, Michel visitou a China em março do ano passado, de onde voltou maravilhado, pretendendo voltar para conhecer mais lugares típicos, não necessariamente aqueles voltados ao turismo. Tanto é que está estudando chinês, não só conversação, mas a grafia, inclusive!
Em reuniões, em ocasiões em que saímos, ou viajamos, juntos, ou em breves momentos de relaxamento durante o trabalho, vez por outra comentava com ele algo que havia lido em “Laowai”, sempre prometendo emprestá-lo assim que terminasse de ler.
A globalização na comunicação tem trazido, cada vez mais, lugares de todos os tipos às nossas telas de TV, ou do computador. O livro não me trouxe muitas informações inéditas, mas nem por isso o achei desinteressante. Aliás, há bom tempo, já havia lido algo similar, “Henfil na China (antes da Coca-Cola!)”, um diário de viagem bem humorado escrito por um artista admirável.
Sônia descreve no livro inúmeras passagens pitorescas e suas agruras num país com um idioma e costumes tão diferentes dos nossos e, como ela mesma declara, na visão de uma profissional da comunicação, de uma turista e de uma mulher, sem a pretensão de tornar a obra um tratado sobre a China.
No ano passado, quando Michel voltou de sua viagem à China, a todo o momento havia algo que ele fazia questão de comentar. Ele é um sujeito com muitas milhas de viagens. Europa praticamente toda, Estados Unidos de cima em baixo, a maioria dos países da América do Sul. Sempre procurando unir um tanto de lazer às obrigações profissionais. Inegável seu gosto por viajar e conhecer novas paragens.
Hoje perguntei a ele se havia começado a ler o livro e o que estava achando. Dono de um respeitável número de expressões faciais, com uma careta já conhecida, decretou: “Acho que vou parar de ler!”
Aí, que fez a careta “por que?” fui eu.
Justificou sua pré-decisão dizendo que não gostou da indignação retratada pela Sônia Bridi ao se deparar com situações envolvendo burocracias governamentais, sistemas corruptos, localidades miseráveis, etc... Ela, como profissional da comunicação que tem obrigação de estar sempre muito bem informada, aparenta desconhecer o próprio país.
Apesar da experiência no país, Michel, ainda vê, e se comporta em diversas situações, como estrangeiro. Como qualquer cidadão com certo esclarecimento, fica cotidianamente irritado ao se deparar com mazelas, falta de educação e de consideração, tanto na área profissional, como na pessoal.
Do meu lado, na maioria das vezes, concordo com a indignação por pensar da mesma forma. Vá a algum banco com a intenção de ser atendido em um caixa. Vá a algum supermercado com menos de 50% das caixas em atividade. Foi rápido abrir uma empresa? Experimente fechar! Finalizando, veja a situação das ruas e das estradas, das escolas, dos hospitais públicos e dê uma chegadinha na R. Boa Vista, só para espiar a quantas anda o “impostômetro”. Não, não falarei nada da política e dos políticos!
Sônia Bridi viveu dois anos na China. Michel passou por lá uns vinte dias. Uma brasileira de Santa Catarina, com experiência em viver fora de seu país, tem uma visão. Michel, um estrangeiro europeu, com experiência de viver no Brasil e conhecer diversos países, também tem sua visão. Eu, um brasileiro, com exígua experiência internacional e que só vivi aqui, tenho a minha, que poderá ser outra quando voltar da China! Por que não?


FRASE
“Se você quer manter limpa a sua cidade, comece varrendo diante de sua casa”.
Provérbio chinês

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A visita

Depois de um pouco mais de cinco anos, hoje revi meu irmão caçula, o Fabinho. A última imagem dele gravada na minha mente ainda me faz muito mal. Na plenitude dos seus trinta anos, nu, inerte sobre uma bancada de aço inoxidável, no I.M.L.. Não pude evitar, afinal estava ali para proceder ao reconhecimento do corpo de mais uma vítima de homicídio. Coisa que não acontece só com “os outros”.
Hoje, junto ao meu outro irmão, o Beto, decidimos não ver o que sobrou do Fábio ao acompanharmos a sua exumação.
Ao entrar no cemitério, um tradicional “campo santo”, próximo à região central da Cidade de São Paulo, não deixei de notar o cuidado com que a administração faz a manutenção daquele local. Nas principais vias de acesso à capela e à administração a aparência é, digamos, regular. Já nas travessas e becos, um pouco menos expostos aos olhos dos visitantes que por ali transitam numa condição emocional alterada e, naturalmente, não notam, praticamente um desleixo total, com lixo, entulhos, sacos plásticos cheios (alguns rasgados). Tudo bem! Não fui ali para fiscalizar, porém notei, apesar do meu estado de espírito.
Ao encontrar o Beto, já com a caixa plástica na mão, o diagnóstico:
- Acho que vai demorar um pouco. Disseram que a coisa está apertada, muito trabalho.
Antes deste encontro, havia visto numa das travessas um caminhão e dois funcionários munidos de pás carregando-o com entulhos. À frente do caminhão, conversando animadamente umas cinco pessoas. Comentei então com o Beto:
- É provável que demore mesmo!
Mas não demorou. Poucos instantes depois de chegarmos ao túmulo, surgiu o funcionário com o carrinho-de-mão, uma pá e uma marreta, que educadamente pediu desculpas pela demora.
- Hoje ‘tá fogo! – comentou. Expressão digna de quem tem o apelido “Fumaça”!
Quando o Fumaça entrou no túmulo e deu uma olhada no seu interior, tendo antes a precaução de arrancar as teias de aranha com um ramo seco extraído de um túmulo próximo, soltou o veredicto:
- Não posso fazer o serviço. Ainda tem 3 gavetas vazias!
- Por que não? E o que tem isso? – perguntamos.
- A administração não deixa tirar os ossos se ainda tem gaveta vazia! Eu posso sofrer as consequências!
- Mas isto foi autorizado, e pago, pelo Serviço Funerário e pela administração do cemitério! – retruquei.
- Está aqui a autorização! Não é possível que eles não saibam quantas gavetas estão ocupadas, e quantas estão vazias, em cada túmulo! Eles administram. Eles controlam. Têm de saber! - indignou-se o Beto.
- É, mas não tem jeito! Vou ter de verificar. É só um instante e já volto. – sentenciou Fumaça.
Aí comentei com o Beto sobre a eficiência administrativa dos órgãos públicos. Falei a ele do episódio que resultou na demissão da administradora e do técnico responsável do Parque Ibirapuera. Um repórter do Estadão fez uma matéria criticando a manutenção do parque e o Sr. Secretário Municipal do Verde e do Meio Ambiente não gostou da reportagem e tomou a providência digna de sua presumível capacidade mental. Os demitidos ocupavam cargos de confiança, subordinados ao administrador dos parques municipais, também cargo de confiança. Acontece que a empresa contratada para tal serviço já vinha sendo objeto de relatórios, que resultaram em multas emitidas pela secretaria, inclusive. Processo administrativo? Pra quê?
Meus botões ouviram: “E se eu chamar o tal repórter pra dar uma olhada aqui?” Instantaneamente imaginei a cara de espanto do administrador do cemitério ao receber o bilhete azul.
- Exumação de processo pode! Pensei que era por sepultamento – falou Fumaça ao retornar depois de alguns minutos.
Entrou com a caixa, um saco plástico azul, a pá e a marreta no túmulo e se pôs a derrubar a parede da gaveta 3D indicada na dita autorização.
Afastamo-nos um pouco e o entulho foi sendo atirado pela portinhola. Olhando meio rabo-de-olho, vimos os restos do caixão, os sapatos, ramos secos, o paletó... E tudo ficou ali, na frente do túmulo, naquela ruazinha apertada e inclinada que só.
Não me lembro se conversávamos ou estávamos em silêncio, quando ouvimos um baque e, por instinto, voltamo-nos e vimos aquela caixa branca, ainda se acomodando sobre o entulho, destampada! Apesar da nossa decisão, não foi possível evitar a visão!
O Fumaça saiu com o saco (o de plástico) na mão e justificou:
- Se eu colocasse os ossos no saco não cabia na caixa. E deu uma sacudida que “reposicionou” os ossos, permitindo a colocação da tampa, que não fechou totalmente. Raspa-de-tacho, o Fabinho tinha lá seus 1,90m de altura. Aparentemente, só deve haver um tamanho de recipiente para ossada, apesar do aumento na estatura média do brasileiro
Profissionalismo pra quê? O Fumaça é só um operário, final de uma linha que vai até o prefeito. Seus únicos equipamentos de segurança, um par de luvas plásticas. Capacete, botas e óculos de segurança, filtro, escada portátil... só no 1º mundo! Treinamento técnico e para tratamento com o público são coisas supérfluas e muito caras! Quanto ao volume disponível, aparentemente só deve haver um tamanho de recipiente para ossada, apesar do aumento na estatura média do brasileiro!
Quanto ao desencontro entre as informações sobre disponibilidade e tempo para o serviço, é possível que em mais de um século não foi possível fazer um complicado cálculo para se obter a média de funerais, de exumações e de outros serviços cotidianos naquele, e seguramente em outros, cemitério.
Depois da caixinha para a(s) cerveja(s) e para o café:
- Era bom tirar os entulhos que estão lá dentro! Aliás, era bom “dar um trato” por fora também! Arrancar esses matinhos, lavar com jato d’água, polir as placas... fica tudo “novinho” – propôs Fumaça.
- E fica quanto?
- É baratinho! Pros senhores, uns 250 "real".
- Certo. Vamos falar para o proprietário e ele é quem vai decidir. Algo mais?
- Não. Os senhores estão dispensados. Não querem anotar o meu telefone?
FRASE
"Agora não importa o que fizeram de ti, mas o que você vai fazer com o que fizeram de ti."
Sartre